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Mano fala tudo

Durante a pré-temporada na Fazendinha, a comissão técnica do Corinthians enfrentou o time da imprensa em um jogo festivo. Em alguns minutos o placar já estava 4 a 0 para a comissão técnica, apesar de a imprensa atuar com 13 jogadores. Os jornalistas-boleiros tentavam sair para jogar, não conseguiam. Os profissionais do Corinthians retomavam a bola e os prensavam na grande área. Em meio a um dos tantos ataques, Mano Menezes deslizou até a lateral do gramado e gritou para o técnico da imprensa, um radialista da Jovem Pan:

— E aí? Manda o teu time adiantar a marcação! Manda o teu time sair!

E voltou para o jogo, às gargalhadas.

Mano divertiu-se porque um dos analistas de futebol, naquele momento, encontrava-se na mesma posição em que ele, técnico, volta e meia se encontra em um jogo profissional.

— Dizer o que tem que se fazer é fácil, ir lá e fazer é que é complicado — riu-se Mano.
Essa história ele a contou com exclusividade a Zero Hora na última quarta-feira, poucas horas antes de seu time enfrentar o Atlético-PR na Arena da Baixada, em Curitiba, de onde voltou com um resultado razoável: derrota de 3 a 2, os dois gols do Corinthians marcados aos 41 e aos 47 do segundo tempo.

Mano concedeu entrevista por mais de duas horas, num canto reservado do saguão do Hotel Pestana, em que o Corinthians estava hospedado.

O gaúcho Mano, discípulo de Ênio Andrade (“uma unanimidade”) e de Felipão (“como todo gaúcho tem de ser”), admirador de Paulo Autuori, com quem fez um estágio em 1997 e a quem não cansa de elogiar, é hoje um dos técnicos mais valorizados do país. Sacou o Corinthians da Série B, como já fizera com o Grêmio e, como já fez com o Grêmio, está prestes a conquistar o campeonado estadual. Neste domingo, às 16h, no Pacaembu, seu time pode perder até por 2 a 0 do Santos que fica com o título paulista.

Mano falou de tudo, no âmbito do futebol. Das relações entre os jogadores, da imprensa e dos clubes. De Grêmio e Inter. De tática:

— A tática da moda é aquela do time que está vencendo. O Felipão jogava de um jeito, aí todo mundo passou a jogar do mesmo jeito. Agora está na moda jogar com três atacantes. O Corinthians joga com três atacantes.

— Mas não jogou com três atacantes na última partida contra o Santos — redarguiu o repórter.

— Porque era fora de casa. Em casa, joga. Aí, é claro, os atacantes têm que voltar. Na Europa eles voltam.

— O Ronaldo tem que voltar?

— O Ronaldo, não. Se tiver que mandar o Ronaldo marcar, então jogo com um volante.

Mano não se omitiu sobre nada, não tergiversou, não foi político nas respostas; foi sincero. Confira a entrevista.

Zero Hora — Por que você decidiu ir para o Corinthians, que estava rebaixado e em crise?

Mano Menezes — O Felipão sempre diz que o melhor é pegar um time que não está bem. O Santos e o Cruzeiro tinham feito propostas, até almocei com o pessoal do Cruzeiro, mas foi por respeito. Na verdade, já tinha acertado com o Corinthians bem antes.

ZH — Quando?

Mano — Quarenta e cinco dias antes do fim do Brasileiro de 2007, quando decidi que ia sair do Grêmio, o Antônio Carlos fez um contato com o Sidnei Lobo (auxiliar de Mano). Não acertei na época porque iríamos pegar o Corinthians na última rodada, mas depois sim.

ZH — Por que você quis sair do Grêmio?

Mano — É difícil um técnico fazer bons resultados por quatro temporadas seguidas no mesmo clube.

ZH — O Corinthians sempre foi um clube conturbado. A torcida se intrometendo, cobrando dos profissionais. Não foi um risco?

Mano — Era conturbado na proporção dos resultados dos últimos anos. Se a direção não ocupa o espaço, a torcida vai lá e ocupa. Faz isso com boas intenções, na tentativa de ajudar, só que de forma errada. Com resultados a gente reconquista a confiança da torcida e ela aos poucos entende como as coisas têm de funcionar. No Corinthians, o departamento de futebol era muito aberto, todos iam lá dar palpite. Isso eu aprendi no Grêmio: o departamento de futebol tem que ser fechado. O dia a dia do futebol é muito duro, de repetição, de esforço, aí o elogio fácil e a crítica acirrada fazem o mesmo mal.

ZH — Na montagem do grupo do Corinthians você priorizou isso, o controle do grupo. Por isso buscou jogadores como o William, não?

Mano — Sim. O William ajuda muito. O Alessandro também.

ZH — Eles dão pareceres sobre o grupo?

Mano — Pareceres confiáveis sobre o grupo. Eles já me ajudavam desde o tempo do Grêmio. Além deles, contratamos também o Perdigão, que em um momento foi importante para o clima da equipe.

ZH — O que representa aquela campanha da Série B para você? Aquela final em Recife?

Mano — Fomos escolhidos para aquilo. Porque aquilo não existe, nunca existiu, nem jamais vai existir. É algo que não pode nem ser usado como referência no futebol, mas, de alguma forma, mostra que, quando fazemos as coisas do jeito correto, elas dão certo.

ZH — Um técnico hoje é mais um tático ou mais um gerenciador?

Mano — A parte tática é importante, mas o mais difícil é gerenciar os relacionamentos. Toda vez que você escala um jogador, você está valorizando os planos pessoais dele, mas está também alterando os planos de quem não foi escalado. E existe ainda a influência externa. Você, técnico, diz uma coisa, mas lá fora, a imprensa, o procurador, os familiares dele estão dizendo outra. Você sabe o que é você ser chamado de pereba no jornal? No dia seguinte ao jogo, o jogador abre o jornal e lê: “Não apoiou, nota 4”. Mas foi o técnico que pediu para ele não apoiar! Como fica o técnico? O pai do jogador vai dizer: “Esse cara está prejudicando você”. Isso é que é difícil.

ZH — O jogador tem que acreditar no técnico.

Mano — Isso é o mais importante. Mas ele não acredita no técnico de graça. Sem resultado, não tem jeito. No intervalo do jogo, o jogador está esperando para ouvir o técnico. Ele espera que o técnico diga como vai ganhar o jogo. Se você ganhar, tudo bem, ele acredita em você. Mas se você perde um jogo, perde outro, perde o terceiro, aí ele começa a desconfiar.

ZH — E aí não faz mais o que o técnico pede, é isso?

Mano — É. Ele precisa saber que, fazendo o que o técnico pede, o resultado virá. Numa equipe cada um tem o seu papel. Depois de um jogo, na segunda-feira, quem a imprensa destaca? Quem fez o gol. A estrela. A estrela ganha mais e recebe 90% do destaque na imprensa, mas há outros que correm pela estrela. Como gerenciar isso?

ZH — Não é o caso do Ronaldo agora? Ele não desperta ciúmes?

Mano — Aí é que está. O jogador não se importa que o outro ganhe mais e que tenha maior destaque, desde que o outro resolva. O Ronaldo resolve.

ZH — O Ronaldo tem ou pediu algum privilégio?

Mano — Nenhum. Nós concentramos em apartamento duplo. O Ronaldo fica em apartamento duplo também. Ele cumpre todos os horários. Não se atrasa para treino nem para a palestra. Ele treina mais do que os outros. Quando todo mundo já foi embora ele continua treinando. Depois do jogo contra o Santos, os titulares estavam liberados, e o Ronaldo veio falar comigo: “Estou bem, não quero ficar dando voltas no campo, quero treinar”. Essa é a diferença da Europa para cá. O Ronaldo tem essa cultura.

ZH — E como é o relacionamento dele com os outros jogadores?

Mano — Ele não se coloca acima de ninguém. Brinca com os jovens, como o Dentinho, o Lulinha. E, em campo, dá resultado. Todos estão esperando que ele resolva, ele vai lá e resolve.

ZH — É o melhor jogador com quem você já trabalhou?

Mano — E o segundo melhor, o terceiro melhor, o quarto melhor... Ele está muito acima dos outros. A capacidade que ele tem de tirar do goleiro é inacreditável. Quando o Ronaldo chegou, o primeiro treino dele era de finalizações. Ele começou a chutar e a fazer gol. Fazia de um jeito que pensei: “O goleiro está de sacanagem”. Pensei isso! Aí outro ia lá, fazia a maior força, e o goleiro defendia. Assim é no jogo. Ele bate na bola de uma forma que surpreende o goleiro, não faz força.

ZH — A forma como ele se coloca também é diferenciada, não?

Mano — Sim! Antes do jogo com o Santos, disseram que os zagueiros não estavam marcando o Ronaldo como deviam. Eu disse: “Pode chegar forte!” Ele foi lá e fez dois gols. A TV não mostra, mas o Ronaldo ilude os zagueiros antes de receber a bola. Ele corre para o lado que não vai e depois faz o que os jogadores chamam de balanço. Ele balança e recebe no lugar onde o zagueiro não está.

ZH — Agora você está convivendo com uma estrela como Ronaldo e num lugar em que a repercussão de tudo o que você faz é muito maior. Qual é a diferença dos ambientes?

Mano — A repercussão é maior. Mas, em Porto Alegre, o ambiente dividido do Gre-Nal é mais nocivo. Inclusive para a imprensa. Às vezes vocês não podem dizer algo que em outro lugar seria normal dizer.

ZH — Mas você, de alguma forma, mudou. Montou o seu site, por exemplo... O site foi ideia de algum assessor de São Paulo?

Mano — O site é feito por uma empresa de Santa Cruz e é coordenado pela minha filha Camila, que é jornalista. Mas algumas coisas não têm mais volta. Tempos atrás, por exemplo, surgiu a ideia de fazer um perfil no twitter. Em 10 dias, eu tinha 30 mil seguidores.

ZH — Essas novas atividades não podem desviar o profissional da essência do seu trabalho?

Mano — Tem que se ter cuidado com isso. Eu sou um técnico de futebol, essa é a minha atividade e não posso deixar de prestar atenção nisso. Já vi questionarem o Wanderley Luxemburgo a respeito dessa questão. Diziam que ele se preocupava demais com o marketing. E é assim. Porque, se o resultado não vier, nada mais tem importância. Construir é demorado, mas perder o que se construiu é rápido.

ZH — Você tem acompanhado a dupla Gre-Nal?

Mano — Tenho visto mais jogos do Grêmio. Do Inter só vi um, o pior de todos, contra o Rondonópolis.

ZH — O que você acha do time do Grêmio?

Mano — Não gostei muito do que vi. Quem é o jogador que pode dar o salto de qualidade? O Souza... O Tcheco não, o Tcheco é um jogador tático. Agora: sou vacinado para saber que tudo pode mudar. O Grêmio pode vencer um jogo importante, ganhar confiança e conquistar o título. Joga com três zagueiros, não? Não gosto muito disso.

ZH — Você não gosta de três zagueiros?

Mano — É que é diferente jogar com três zagueiros e com uma linha de três. Quem eram os três do Luiz Felipe na Copa? Lúcio, Edmilson e Roque Junior. Esses três me servem. Mas jogar com três zagueiros típicos não é o ideal.

ZH — E o Inter?

Mano — O Inter continua com Bolívar na lateral direita, Índio e Álvaro no meio e Kléber na lateral?

ZH — Continua.

Mano — E o meio-campo?

ZH — Sandro como volante, Magrão pela direita, Guiñazu pela esquerda e D’Alessandro armando. Na frente, Taison e Nilmar.

Mano — É um bom time... Um bom time...

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Fonte: Zero Hora
Data de publicação: 02/05/2009


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